CALL FOR PAPERS | ARTis ON 11

2020-03-13

O próximo número da revista ARTis ON do Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa intitulado Excesso e insuficiência do vídeo é dedicado ao papel que este meio desempenha nas atuais práticas artísticas.

 

O excesso definido pelo recurso ao vídeo na primeira década deste século e a sua aparente plenitude não definiram contudo uma qualquer unidade do meio, quebrada por preocupações tão distintas como a recusa do high-tec e o recurso ao obsoleto, a memória e o arquivo, o found footage manipulado ou a relação entre o documentário e a ficção. O vídeo tornou-se um meio artístico privilegiado e a sua remissão para uma diversidade de práticas culturais, que confrontou criticamente, devolveu a insuficiência estruturante de um agente de teste do mundo contemporâneo.

 

Na última década assistimos a uma transformação desta configuração e o vídeo surge integrado em conjuntos e assemblages heterogéneas. Se o antigo expanded cinema podia servir de antecedente ao quebrar a bidimensionalidade do ecrã, dividi-lo e aglutinar outros elementos performativos, neste existia uma lógica compositiva associada a um tema. As atuais instalações são constituídas por objetos, documentos, imagens, elementos que guardam a sua independência e se relacionam entre si de formas particulares ou mesmo obscuras. A seleção destes elementos no conjunto suscita conflitos e epistemologias diversas. É no seio desta heterogeneidade que o vídeo tem um lugar entre outros agentes (Pierre Huyghe, Jenna Sutela, Laure Prouvost, Walid Raad, Pedro Barateiro, para citar alguns casos suficientemente heterogéneos). O seu agenciamento é então o produto de um conjunto diferenciado estando a sua efetividade distribuída por este campo ontologicamente heterogéneo. Como cada elemento/actante mantém uma componente desligada do conjunto da instalação, pelo que o vídeo salvaguarda uma eficácia própria, nos casos mais radicais suscetível de iteração para novos contextos. Neste sentido participa num agregado não totalizável, ainda que se conecte com os outros actantes. Esta porosidade pode ser a manifestação atual da sua insuficiência.

 

Por outro lado, os vídeos de outros artistas (Ed Atkins, Cécile B. Evans, Hito Steyerl, Ryan Trecartin, Gabriel Abrantes, Clemens von Wedemeyer, Alexandre Estrela, Otolith Group, também eles muito diferenciados entre si) assumem a exclusividade ou a centralidade das projeções. Estas podem oscilar entre a CGI (computer generated image) de alta definição 8K ou a poor image reciclada vezes sem conta através da internet, todavia é a presença da imagem digital e as suas práticas sociais, políticas ou perceptivas, os seus offs e a sua absorção do mundo, que manifesta um excesso que se dobra sobre uma ausência constitutiva. Como se a insuficiência do digital contribuísse para a sua regeneração contínua até à substituição das coisas, dos seres e das materialidades numa circulação infinita tornada a linguagem contemporânea, perigosamente determinada pela lógica do capital. A interrogação do excesso por estes artistas revela-se crítica e distanciada de uma suposta autossuficiência. Na hegemonia do digital levada à exaustão espreita-se para as possibilidades da não-identidade.

 

Este número da revista ARTis ON procura levar a cabo uma reflexão sobre as questões suscitadas pelas atuais práticas do vídeo e das subsequentes considerações para a história da arte, não tanto nos seus antecedentes ou na história das neovanguardas mas sobretudo sobre as mais recentes realizações.

Os artigos a submeter poderão articular os tópicos acima referenciados ou outros considerados significativos para o tema. Convidamos historiadores de arte, críticos de arte, curadores, artistas e demais interessados no tema a enviar os seus artigos até 21 de setembro de 2020, segundo as normas da revista:

http://www.artis.letras.ulisboa.pt/publicacao_a3,10,137,820,detalhe.aspx

Até 2 de novembro serão comunicados os resultados das arbitragens.

Dentro do mesmo prazo, serão também aceites pequenos artigos destinados à secção Varia, que não terão que se subordinar ao tema central da revista.

Todos os materiais devem ser enviados para os seguintes endereços eletrónicos: revistaartison@letras.ulisboa.pt

pedrolapa@letras.ulisboa.pt 

 

A ARTis ON é uma revista em open access e indexada no DOAJ, ERIH PLUS (European Reference Index for the Humanities and the Social Sciences), LATINDEX e é membro da CROSSREF.