EDITORIAL

  • Rosário Salema Carvalho Az – Rede de Investigação em Azulejo, ARTIS - Instituto de História da Arte, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa

Resumo

A definição das diferentes contribuições que estão na origem da produção e aplicação dos revestimentos em azulejo foi o desafio lançado pelo seminário AzLab#33, intitulado Quem faz o quê: processos criativos em azulejo, que decorreu no dia 7 de Junho de 2017 na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa [1].
No texto da chamada de comunicações esclarecia-se que a realização de um revestimento em azulejo implica diversas etapas, que têm início na sua concepção e terminam com a sua aplicação. Neste processo destacam-se vários intervenientes – encomendadores, ladrilhadores, oleiros, pintores ou arquitectos –, em que também se incluem, por exemplo, as olarias e as fábricas.
Estas tarefas nem sempre foram cabalmente entendidas e ainda hoje há dúvidas sobre os limites de acção de cada interveniente. Por este motivo, o AzLab#33 revestiu-se de uma enorme importância, lançando pela primeira vez, à comunidade científica, o desafio de estudar este diferentes agentes e definir conceitos para um futuro thesaurus sobre azulejaria, quer através de textos de reflexão teóricos, quer através de casos de estudo particulares. Pretendia-se, em última análise, traçar um quadro amplo caracterizador de quem faz o quê, considerando que as posições relativas destes múltiplos agentes no tabuleiro da produção azulejar portuguesa se vão alterando ao longo dos tempos, em função de aspectos tão distintos como a evolução tecnológica ou a cultura artística.
Muito embora, face à especificidade do tema e ao número reduzido de investigadores que se dedicam a estas matérias, a resposta da comunidade científica possa ser considerada muito positiva, a verdade é que não há ainda massa crítica suficiente para permitir uma leitura destas questões que seja transversal a toda a história da azulejaria portuguesa.
Como tal, espera-se que o número especial da revista ARTisON, que agora se edita, possa vir a constituir-se como uma sólida base de trabalho, onde os investigadores encontrem um actualizado estado da arte sobre quem faz o quê em azulejo, estimulando um debate que precisa urgentemente de ser ainda mais alargado.
Procurando espelhar as dinâmicas do colóquio, optou-se, na organização deste volume, por uma sequência cronológica apresentando primeiro, em jeito de contexto, os artigos de cariz mais teórico e, logo de seguida, os casos de estudo correspondentes. Nesta medida, os primeiros dois textos caracterizam as actividades profissionais associadas à produção azulejar entre os séculos XVI e XVIII – oleiro, mestre ladrilhador, pintor e arquitecto –, centrando a atenção na cidade de Lisboa, o principal núcleo produtor de azulejos do país. Ambos resultam da comunicação apresentada pelos promotores do AzLab#33, Rosário Salema de Carvalho e Celso Mangucci, que funcionou como uma introdução contextualizada ao tema principal em discussão no colóquio, sintetizando as perspectivas de investigação seguidas por ambos nos últimos anos.
Seguem-se os textos de Miguel Portela, que apresenta um importante contributo para a genealogia de vários mestres ladrilhadores setecentistas, e de Rui Mendes, que revela algumas sociedades de ladrilhadores e pintores constituídas na segunda metade do século XVIII.
Da Época Moderna passamos ao Romantismo, com um texto de Francisco Queiroz sobre as questões da autoria e da repartição de tarefas centrado na produção industrial da segunda metade do século XIX. Este permite avançar a cronologia de análise contextualizando também o artigo seguinte, de Marluci Menezes e Sílvia Pereira, em que se abordam as memórias de produção da Fábrica Constância, em Lisboa.
Por fim, chegamos à contemporaneidade, através da reflexão sobre a importância do azulejo no âmbito da obra do arquitecto Siza Vieira, conduzida por Alexandre Nobre Pais.
Ao entender este número especial da ARTisON como um volume de actas, e ao considerá-lo como uma ferramenta de trabalho futuro, não poderíamos deixar de incluir a publicação das definições terminológicas discutidas no workshop com que se encerrou o AzLab#33, nem deixar de mencionar o desafio lançado no sentido da prática de uma cultura científica aberta, inclusiva e colaborativa. Na verdade, pedia-se aos participantes com comunicação que, em jeito de inscrição, criassem ou complementassem uma ou mais fichas biográficas dos intervenientes que iriam abordar nas suas comunicações, para serem publicadas no Az Infinitum – Sistema de Referência e Indexação de Azulejo [2], e que podem ser consultadas no separador “autorias”.
Resta-nos agradecer a todos os participantes, à Comissão Científica do AzLab#33, assim como à Comissão Executiva, destacando, nesta última, o apoio científico de Celso Mangucci e o apoio ao nível do design gráfico e na organização do seminário de Inês Leitão.

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[1] O AzLab é um seminário mensal, organizado pelo grupo Az – Rede de Investigação em Azulejo, do ARTIS – Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em colaboração com o Museu Nacional do Azulejo. O objectivo do AzLab é criar novas perspectivas de análise sobre questões relacionadas com o azulejo, entre as quais a investigação, o inventário, o coleccionismo, a salvaguarda, a criação ou a divulgação do azulejo. A ideia de desenvolver um laboratório de pesquisa sobre azulejo, que passa pelo conceito de procedimento experimental associado a estes espaços, é aqui aplicada à discussão de trabalho que se pretende promover. Introduz também um conceito externo à história da arte e que aponta para a investigação multidisciplinar. Todos os meses é apresentado um tema para discussão pública, que pode partir de projectos de investigação, dissertações de mestrado, teses de doutoramento e outros. São convidados a colaborar investigadores nacionais, pessoas ligadas às mais diversas instituições tentando, sempre que possível, contar com a participação de investigadores estrangeiros. O AzLab#33 especial Quem faz o quê: processos criativos em azulejo consistiu num dia inteiro de conferências (https://blogazlab.wordpress.com/category/quem-faz-o-que-who-does-what/) e contou com a co-organização do Centro de História de Arte e Investigação Artística da Universidade de Évora (CHAIA-UE), tendo ainda o apoio da editora Centro Atlântico.
[2] Az Infinitum – Sistema de Referência e Indexação de Azulejo. Disponível em http://redeazulejo.letras.ulisboa.pt/pesquisa-az (2017.08.12). Sistema desenvolvido pela Rede de Investigação em Azulejo, em parceria com o Museu Nacional do Azulejo e a empresa Sistemas do Futuro.

Publicado
2018-06-11
Secção
EDITORIAL