EDITORIAL

  • Rosário Salema de Carvalho Az - Rede de Investigação em Azulejo, ARTIS – Instituto de História da Arte, Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa
  • João Pedro Monteiro Museu Nacional do Azulejo
Palavras-chave: Identidades do Azulejo, AzLab, Rede Azulejo, Europe for Culture

Resumo

O azulejo tem vindo a ser abordado em Portugal, do ponto de vista teórico, desde a segunda metade do século XIX, numa perspetiva que acentua, de forma crescente, a ideia de originalidade e, mais recentemente, de fator identitário, sendo que, na atualidade, é reconhecido como uma das artes que mais identifica a herança patrimonial portuguesa. Mas será que é mesmo assim? E será legítimo associar-se uma narrativa identitária ao azulejo ou esta ideia prende-se, apenas, com questões de valorização nacional?
Integrado no mês do azulejo e nas celebrações do ano europeu do património cultural, o AzLab#42 especial Identidade(s) do azulejo em Portugal [1], teve como principal objetivo discutir as questões de identidade(s) relacionadas com a azulejaria, centrando a sua atenção quer na construção historiográfica deste(s) conceito(s), quer nos diferentes aspetos que distinguem o uso português do azulejo das formas como outros países entenderam esta arte.
Resultando de um protocolo assinado entre a Rede de Investigação em Azulejo (ARTIS-IHA/FLUL) e a associação dos Amigos do Museu Nacional do Azulejo, o AzLab#42 especial decorreu no anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no dia 4 de Outubro de 2018. A chamada de trabalhos, de âmbito internacional, teve um número significativo de propostas, das quais, após revisão por pares, foram selecionadas seis. Estas foram complementadas por três oradores convidados, com um trabalho de reconhecido valor na área, o que suscitou um enorme dinamismo nos vários debates que aconteceram no decorrer da sessão.
Por todos estes motivos, ao fixar os contributos de vários autores com diferentes formações e nacionalidades, o presente volume de atas assume-se como um documento de enorme relevância para o futuro, cumprindo assim um dos seus objetivos iniciais de apresentar uma visão da comunidade científica sobre esta matéria e contribuir para o suporte teórico da candidatura do azulejo português a património mundial da UNESCO.
A organização deste número especial da ARTis ON reflete o programa do AzLab#42, começando por apresentar um conjunto de textos relativos à historiografia, organizados do geral para o particular. Nuno Rosmaninho abre o volume com um artigo intitulado “Azulejos portugueses e outras artes nacionais”, em que procura “(...) integrar as apropriações identitárias do azulejo numa deriva comum à generalidade dos discursos artísticos nos séculos XIX a XXI”.
Focando o discurso nas questões diferenciadoras, Alexandra Gago da Câmara e Rosário Salema de Carvalho elencam os fatores de originalidade identificados na historiografia europeia até meados do século XX, observando como os mesmos emergem de ideias relativamente dispersas para se materializar num conjunto de aspetos bem definido. Numa perspetiva ainda mais dirigida, Sandra Leandro explora o papel de Joaquim de Vasconcelos neste contexto, cabendo a João Pedro Monteiro referir-se a um dos nomes mais significativos do estudo da azulejaria – João Miguel dos Santos Simões.
O entendimento das convergências e divergências entre a azulejaria portuguesa e espanhola, entendidas como focos de irradiação universal do azulejo, é apresentado por Jaume Coll Conesa, a que se segue um conjunto de textos que, respondendo ao tema “azulejo: que identidade(s)” da chamada de artigos, aborda determinadas características distintivas. Maria de Fátima Rodrigues e Pedro Freitas analisam a azulejaria de padrão através de modelos matemáticos de classificação; Cristina Carvalho observa os painéis publicitários; Shelley Miller mostra como as suas intervenções artísticas põem em causa a ideia de identidade e, continuando na contemporaneidade, Inês Leitão encerra o ciclo ao analisar de que modo os artistas entenderam as questões identitárias ligadas ao azulejo.
Todavia, muito fica ainda por debater e esclarecer, e um dos aspetos mais interessantes do AzLab#42, e dos textos que são agora publicados, reside no leque de questões que emergem como perspetivas de investigação futura. A importância que hoje se reconhece ao azulejo, e a forma como este marca a paisagem nacional, quer pela sua presença física, quer enquanto imaginário e referente para um vasto conjunto de outras manifestações culturais e artísticas, que vão desde a moda à culinária, é suficiente para lhe conferir o estatuto de valor identitário de uma cultura? Ou estaremos, por vezes, em presença de discursos que visam subordinar a azulejaria portuguesa a uma narrativa de maior amplitude, fazendo-a integrar um conjunto de fatores, supostamente distintivos, com o qual se pretende construir uma imagem nacional para consumo externo?
Acreditando que o presente volume é um contributo para o futuro e que, a partir desta iniciativa, várias outras possam nascer, resta-nos agradecer a todos os participantes, à Comissão Científica do AzLab#42, e à Comissão Executiva, destacando o apoio ao nível do design gráfico e da organização de Inês Leitão, assim como de Rafaela Xavier e Fábio Ricardo.

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[1] O AzLab é um seminário mensal, organizado pelo grupo Az – Rede de Investigação em Azulejo, do ARTIS – Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em colaboração com o Museu Nacional do Azulejo (https://blogazlab.wordpress.com). O objetivo do AzLab é criar novas perspetivas de análise sobre questões relacionadas com o azulejo, entre as quais a investigação, o inventário, o colecionismo, a salvaguarda, a criação ou a divulgação. A ideia de desenvolver um laboratório de pesquisa sobre azulejo, que passa pelo conceito de procedimento experimental associado a estes espaços, é aqui aplicada à discussão de trabalho que se pretende promover. Introduz também um conceito externo à história da arte e que aponta para a investigação multidisciplinar. Todos os meses é apresentado um tema para discussão pública, que pode partir de projetos de investigação, dissertações de mestrado, teses de doutoramento e outros. São convidados a colaborar investigadores nacionais, pessoas ligadas às mais diversas instituições tentando, sempre que possível, contar com a participação de investigadores estrangeiros. O AzLab#42 especial Identidade(s) do azulejo em Portugal consistiu numa conferência de um dia inteiro e contou com a co-organização da associação de Amigos do Museu Nacional do Azulejo, tendo ainda o apoio da editora Centro Atlântico.

Publicado
2018-12-30
Como Citar
Carvalho, Rosário, e João Monteiro. 2018. EDITORIAL. ARTis ON, n. 8 (Dezembro), 4-7. http://artison.letras.ulisboa.pt/index.php/ao/article/view/212.